No último dia 1º, abrindo o Agosto Dourado, a Liga de La Leche Latinoamerica, juntamente com o aclamado escritor e pediatra espanhol Carloz Gonzalez, realizou uma conferência no Youtube com o tema “Birras e gritos”, em que o médico, que também é presidente e fundador da Associação Catalã Pró-Aleitamento Materno, especialista em aleitamento materno pela Universidade de Londres e autor de diversos livros, dentre eles, “Um presente para toda vida”, “Guia de aleitamento materno”, “Bésame Mucho”, entre outros, além de ser pai e avô, fez uma defesa das crianças e mostrou como os pais devem lidar com as situações de birras dos pequenos. Como a conferência foi toda em espanhol, traduzi a maior parte das palavras de Carlos Gonzalez e compartilho aqui com vocês.
Gonzalez começou sua fala refutando afirmações da própria Associação Espanhola de Pediatria, para a qual “as birras podem nascer do afã de posse, do egocentrismo, da necessidade de concentrar a atenção dos demais, da ambição de poder, do afã de independência e do despertar da vontade”. A associação orienta ainda aos pais que “a criança deve ter muito claro que, com sua birra, não conseguirá ganhar a atenção. Ao contrário, obterá indiferença” e que “nunca se deve conceder um desejo que a criança expressa através de birra, por mais justo e lícito que seja. Aceder seria aceitar uma chantagem”, de acordo com a associação.

Sobre essa abordagem sobre as birras das crianças, Carlos Gonzalez rebate que chantagem é um crime previsto no Código Penal e que, acusar uma pessoa de um crime também é cometer outro crime, nesse caso, é crime de calúnia. “É incrível que se possa falar assim da criança, como se estivéssemos falando de adolescentes, que às vezes são mais altos do que seus pais e mães e então podem dar um pouco de medo e te ponhas a lutar. Estamos falando de crianças que têm birras aos 2, 3, 4 anos. Que ainda que nossa conduta tenha sido injusta, e ainda que a criança tenha razão, devemos esperar que passe a birra?! Não tem a ver se sua conduta foi justa ou injusta, não tem que esperar nada, tem que pedir perdão já!”, afirma o especialista.
E ele segue: “Querem nos fazer crer que as crianças têm birras de propósito para nos fastidiar, que eles acordam a noite porque querem ou que a criança vomita porque quer. Às vezes, escuto que a criança chora e provoca o vômito para manipular. Como pode as pessoas acreditarem nessas loucura? Se alguém pudesse provocar o vômito, quando sofresse alguma intoxicação alimentar, ao chegar no hospital lhe diriam: Entra aqui no banheiro e vomite”.
Gonzalez explica que a criança pequena não tem birra porque e quando quer, diferentemente de crianças maiores, que já entendem o que os pais pensam e esperam delas. Conforme o pediatra, os pais e adultos em geral precisam entender que as birras são muito pouco eficazes para as crianças porque, em muitas famílias, elas são ignoradas, ridicularizadas, insultadas ou podem até levar um bofetão.
“Elas fazem birras porque não sabem fazer melhor, porque não conhecem outros métodos para pedir o que querem, ou para expressar a dor ou que estejam sentindo porque nem sabem o que estão sentindo. Quando a criança aprender o que sente, se expressará muito melhor”, afirma Gonzalez, que complementa que a mesma criança que aos 3 anos faz birra para pedir o que quer, aos 8 ou aos 12 anos, conseguirá pedir o que quer através da persuasão.
Limites e autoridade
Em sua palestra em defesa das crianças, o pediatra espanhol ainda abordou a diferença que existe entre adultos e crianças sobre o mesmo aspecto. Ele mencionou , por exemplo, que a criança ao fazer birra é alvo de reprovação. Já o adulto quando faz uma birra, o comportamento é tido como nervosismo.
Da mesma forma, a abordagem sobre os limites também é diferente entre crianças e adultos. Enquanto das crianças se espera que não quebrem as regras, que ajam dentro dos limites, os adultos são encorajados a romper os limites, o que éa visto como algo bom, como superação.
Gonzalez afirma que todos temos limites, independentemente da idade. Eles sempre seguirão existindo, alguns naturais (como não poder voar porque não temos asas), outros impostos pela sociedade. No caso das crianças pequenas, a maioria dos limites ocorrem por conta de sua condição física e cognitiva, que os tornam dependentes. Exatamente por isso, são os adultos quem têm a obrigação de evitar situações e coisas perigosas para as crianças.
“Todas as crianças têm limites e todos os pais têm autoridade. E me preocupa ver tantos pais preocupados em procurar saber como exercer a autoridade. Temos autoridade porque somos mais velhos, mais sábios, mais fortes. Ninguém pode conseguir a obediência perfeita, mesmo em ditaduras. Por isso os governantes dão poucas ordens, porque sabem que se derem muitas ordens, ninguém vai obedecer”, diz Gonzalez.
Cobranças
O especialista ainda destacou como as crianças estão o tendo todo sufocadas por ordens dos adultos, cobradas por coisas que nem mesmo Deus, a polícia, as autoridades cobram da população. “Deus só nos dá 10 ordens. Você pode pisar numa poça diante de um policial que não vai acontecer nada, mas não pode fazer o mesmo diante da sua mãe. Nós passamos a vida dando ordens aos nossos filhos e, às vezes, castigando nossos filhos por coisas que Deus não proíbe, que o papa não proíbe, que o presidente da República não proíbe, que a polícia não proíbe. Ao final, a vida de muitos pequenos se converte em uma sucessão de ordens, gritos, ameaças e castigos”, aponta.
O pediatra afirma não crer que seja agradável para os pais fazer isso com seus filhos, mas questiona por que então as pessoas decidem ter filhos, se antes podiam fazer o que quisessem sem ter que dar satisfações a ninguém ou levar bronca de ninguém e agora vivem fazendo com os pequenos aquilo que não gostavam de passar quando eram crianças.

Teoria do apego
Para comprovar que os castigos, os gritos, as ordens e as ameaças às crianças não funciona, o pediatra recorre à teoria do apego abordada pelo psicólogo inglês John Bowlby, em seu livro “Vínculos afetivos: formação, desenvolvimento e perda”, de 1979. Para o teórico, “é errônea a noção de que aos pequenos lhes pode inculcar disciplina, fazendo-lhes obedecer normas”. A respeito dessa premissa, Gonzalez questiona: “Como é possível que ainda tenha gente tentando fazer isso que a Psicologia há décadas nos diz que não funciona?”.
Mas o pediatra afirma que os pais, às vezes, podem fazer os filhos pequenos obedecerem regras, como, por exemplo, lavar as mãos antes de comer. A primeira forma de fazer isso é pedindo normalmente. Se falhar, pode-se utilizar o chamado “entusiasmo materno”, ou seja, dar a mesma ordem, porém de forma convidativa, carinhosa e lúdica. Dessa forma, mais da metade das crianças lavarão as mãos, segundo Gonzalez. Em último caso, os pais podem pegar a criança e lavar as suas mãos. “Aí se acaba o problema e você pode conseguir que as mãos de seu filho estejam lavadas, mas você tem que estar presente. O que não pode querer é conseguir que ele obedeça normas quando você não está”, assevera.

O mesmo acontece até com os adultos, cutuca Gonzalez, usando como exemplo, pessoas que estacionam o carro em local proibido quando o agente de trânsito não está olhando. Ele ensina que é necessário dizer o que fazer às crianças quantas vezes forem necessárias, sempre com paciência e respeito.
O especialista lembra que a publicidade é segmento com mais mérito em fazer com que as pessoas façam o que as marcas querem. Por exemplo: a frase “Beba Coca Cola” é uma das mais disseminadas da mesma forma há cerca de um século e muita gente obedece quase sem perceber que se trata de uma ordem. Os publicitários sabem que é inútil e contraproducente mandar beber coca cola de forma violenta. “Não venderiam mais nenhuma coca cola se ameaçassem as pessoas”, diz Carlos Gonzalez.
Para ele, é ridículo os pais brigarem com seus filhos por coisas tão bobas. “Não são eles os adultos responsáveis, somos nós. Somos nós que temos que manter as coisas perigosas fora de seu alcance, ser vigilantes. Não podemos pretender dizer a uma criança pequena o que deve fazer porque isso não funciona. Os pais são os únicos no mundo que pretendemos que nossos filhos nos obedeçam sem protestar. É absurdo! Somos os únicos a fazer coisas tão ridículas como falar: ‘Por que reclamou?! E a mim não me faça essa cara! E a mim não responda dessa maneira!’ Se a criança responde, o pai fala: ‘Não me responda!’ Se a criança se cala, o pai grita: ‘Responda!’”, enfatiza o médico, apontando a incoerência dos adultos.
O escritor espanhol ressalta como é desigual o tratamento dado às crianças em relação aos adultos, dizendo que até um assassino julgado pelo juiz tem direito de recorrer da decisão. Da mesma forma, quem é multado, pode interpor alegação. Ninguém diz a eles: “Cale-se e obedeça!”, lembra. “É normal uma criança de 3 anos ter um birra. O que não é normal é um adulto ter uma birra. Não pode acontecer de o filho ter uma birra e você ter uma birra maior”, alerta.
De acordo com o pediatra, “não há nada que faça mais uma criança feliz do que ver seus pais felizes com ele porque ele obedeceu. Eles gostam de obedecer. Quando desobedecem é porque para eles não é clara a ordem”. Exemplo: o adulto diz que não é hora de pintar. Na cabeça da criança, em outra hora pode. Se o adulto diz que não pode pintar essa parede, para a criança, na outra parede pode. “Quando entendem a ordem, param de fazer”, complementa Gonzalez.
Pouca eficácia do castigo
Em sua conferência, Carloz Gonzalez recorreu novamente ao psicólogo John Bowlby (1979) para asseverar que “uma das mais grandes ilusões da civilização ocidental é a de que o castigo é eficaz como meio de controle”. Para ele, o castigo não modifica a conduta das pessoas. Os adultos são castigados por coisas sérias, como o cometimento de crimes, e não se espera que o castigo modifique suas condutas, apenas que “paguem” pelo que fizeram de mal. Como exemplo hipotético, o médico disse que quando as filhas arrumassem um namorado que acabou de sair da cadeia, comentariam assim: “Minha filha tem um namorado ex-presidiário. Com certeza vai ser muito bom porque foi castigado”.

Outro exemplo clássico que demonstra que o castigo não faz ninguém refletir sobre seus erros e querer mudar é quando uma criança é castigada a ficar de frente para a parede. “Quando você vira as costas, ela mostra a língua para você. E se não o fizer, ela pensa. O que você pensa que seu filho fica pensando quando você o castiga, o ridiculiza? A mesma coisa que você pensava quando passava por isso quando era criança. Isso não é respeito”, declara Gonzalez.
Ele destaca que, da mesma forma que os castigos são inúteis como medida educativa, os prêmios para quem faz o correto também são, o que é cientificamente comprovado pela Psicologia. E Gonzalez vai mais além. Para ele, esse tipo de abordagem pode criar uma pessoa imoral porque terá suas ações guiadas pelo que irá ganhar em troca e não pelo que é certo ou errado. “Uma pessoa boa não se abstém de fazer algo ruim por medo do castigo, mas porque sabe que é mal e não vai fazer. Uma pessoa boa não faz o que é certo pensando no que vai ganhar, mas sim porque é o certo a se fazer”.
Querida Celly. Obrigada por transpor em poucas e claras palavras a live de 1h com Dr Gonzalez.
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