Grupo Mães de Anjos realiza 1ª Semana de Sensibilização à Perda Gestacional, Neonatal e Infantil em Cuiabá

Buscando humanização no acolhimento que recebem nos serviços de saúde e maior atenção e visibilidade ao momento mais delicado de suas vidas, mulheres que compõem o grupo de apoio Mães de Anjos Mato Grosso está realizando a 1ª Semana de Sensibilização à Perda Gestacional, Neonatal e Infantil em Cuiabá.

A programação começou na sexta-feira (7), com o lançamento oficial na Câmara de Cuiabá, com audiência pública convocada pelo vereador Lilo Pinheiro. No sábado (8), foi realizado um workshop para profissionais de saúde com o tema “Luto Parental: o acolhimento multidisciplinar”, que contou com a participação de psicólogas, assistentes sociais, enfermeiras, estudantes de Enfermagem, fisioterapeuta e mães enlutadas, que compartilharam suas experiências e contribuíram para que os profissionais entendam o sentimento delas e o que esperam no tratamento de saúde.

No workshop, a psicóloga e especialista em Psicologia Perinatal, Isadora Soeiro, abordou a questão do luto, de como o luto parental é invisibilizado na sociedade pelo fato de a maioria das pessoas não saber como acolher a mãe e o pai, achando que é melhor não falar do assunto. O resultado disso, é que aquela mulher e aquele pai sofrem calados, carregando aquela dor de forma solitária. Também foi abordada a Política Nacional de Humanização, o protocolo de comunicação de más notícias, tudo para minimizar evitar que, além da dor da perda, a mãe ainda tenha que sofrer com a dor de um atendimento sem humanização.

A enfermeira Alessandra Emanuelle, que atua no Hospital Júlio Muller e tem experiência de atendimento a mães que perderam seus bebês, abordou a questão do luto do ponto de vista dos profissionais, que muitas vezes querem oferecer um serviço de excelência, mas, muitas vezes enfrentam dificuldades, como limitações impostas pela burocracia das instituições. Destacou-se ainda a questão da saúde mental desses profissionais, que também sofrem, mas, por questões de ética, não podem demonstrar esse sentimento e muito menos falar sobre aquilo com outras pessoas.

Mais atividades

Nesta semana, de hoje até sexta-feira (14), o Grupo Mães de Anjos fará atividades fechadas para mães enlutadas, dentro de dois hospitais-maternidade de Cuiabá, como entregas de certidões de amor eterno.

O encerramento da programação será no próximo sábado (15), Dia Internacional de Sensibilização ao Luto Gestacional, Neonatal e Infantil, com a soltura de balões no Parque das Águas, às 16h. “Será um ritual de despedida e de homenagem a esse filho que partiu”, explica a coordenadora do Grupo Mães de Anjos, Beluci Bianca.

Segundo ela, o movimento de mães que perderam seus bebês é internacional. Foi nos Estados Unidos que surgiu a Semana de Sensibilização ao Luto Gestacional, Neonatal e Infantil, realizado no mês de outubro. “Esse movimento veio crescendo no Brasil e chegou em Cuiabá. Em 2019 nós montamos o projeto, que foi para a Câmara de Vereadores e aprovado. Só em 2020 saiu no Diário Oficial e agora em 2022 que estamos conseguindo realizar”, conta.

Grupo Mães de Anjos

Enfermeira e doula, Beluci Bianca relata que, apesar de não ter vivido o luto gestacional, fundou o grupo de apoio Mães de Anjos Mato Grosso em novembro de 2016, após ver o sofrimento de um casal de amigos. “Um casal bem próximo da minha família perdeu uma menina. Foi a partir dessa perda que eu fui estudar e entender como que se dava tudo isso e montei o grupo em novembro de 2016”, diz.

Desde então, cerca de 300 mulheres já passaram pelo grupo de WhatsApp. “Elas passam pela perda, alguém indica o grupo e elas são acolhidas por mim e incluídas no grupo de WhatsApp. Nesse grupo, existe um acolhimento de mãe para mãe. Tem algumas regras, então, tudo que é falado no grupo não pode sair dali. Elas podem xingar, podem desabafar tudo o que elas têm naquele momento, naquele espaço. E outras mães vão fazendo a acolhida daquelas mães que estão passando pelo processo de perda recente. Tem mães que passaram pela perda já há 5, 6 anos, mas estão no grupo e fazem esse acolhimento. Elas me ajudam a realizar também as atividades do grupo”, explica Beluci.

Quem está de fora

De acordo com a coordenadora do Mães de Anjos, a maioria das atividades envolve as famílias enlutadas, apesar de buscarem visibilidade para a causa. “A gente tenta trabalhar com as mídias, mas para falar sobre luto, sobre morte, a gente ainda tem certa dificuldade”.  

De forma prática, Beluci Bianca orienta as pessoas que convivem com um casal que sofreu a perda de um bebê a terem uma abordagem empática e praticar a escuta. “Se você não sabe o que falar, fale apenas que você está ali para o que ela precisar. Faça a escuta na essência, escute de verdade o que essa mulher tem pra falar. Não só perguntar por prática, mas escutar e dar a atenção que ela merece e falar do seu filho que partiu. Muita gente tem medo de falar de alguém que morreu. Então, fale sobre esse filho que partiu porque que mãe que não gosta de falar do seu filho? Ela também é uma mãe, ela também gosta de falar desse filho”, enfatiza.